
Adolpho Guimarães Corrêa completaria 24 anos quando se mudou para Rio Preto, atraído pela noiva, Maria Ermelinda, sua prima em primeiro grau. Nascido em Aiuruoca, no sul de Minas Gerais, em 25 de novembro de 1873, filho de Cyrillo Gimarães Corrêa e Amélia Estephania de Almeida, chegava para conquistar seu lugar ao sol.
Maria Ermelinda Guimarães Corrêa, também nascida no final do no 1873, era filha de Ezequiel Guimarães Corrêa e Rozalina Augusta Corrêa, casados em 11 de janeiro de 1873, em Santo Antonio da Alegria, cidade paulista localizada na divisa de Minas Gerais ao lado de Itamogi. Ezequiel e Cyrillo eram filhos de Ezequiel José Corrêa e Maria Claudina de Paiva. Rozalina nasceu em Passos, era filha de Antônio Carlos José de Barros e Marcia do Carmo Viana.
Dois documentos apontam duas cidades para o nascimento de Maria Ermelinda: em um deles, sua cidade natal é Machado, em Minas, e no outro (seu atestado de óbito), indica Santo Antonio da Alegria, onde seus pais se casaram. A distância entre as duas cidades é de duzentos quilômetros.
A vinda do jovem advogado provisionado (rábula) Adolpho para se casar com a prima foi festejada pela família e pelos amigos. Ezequiel e Rozalina haviam se mudado para Rio Preto entre 1892 e 1894. Antes, moravam em Jaboticabal, onde Ezequiel, também advogado provisionado, havia sido vereador e presidente da Câmara Municipal, tendo formado um amplo círculo de amizades e conquistado um certo poder político. Com a chegada dos advogados diplomados, aqueles que eram provisionados foram sendo empurrados para as cidades menores e com Ezequiel não foi diferente. Ele escolheu o vilarejo de Rio Preto, distante cerca de 180 quilômetros de Jaboticabal, na época um distrito de paz extremamente pobre.
Em Rio Preto, ele se aliou ao comerciante negro, Pedro do Amaral Campos, recém-nomeado fiscal do distrito pela Câmara Municipal de Jaboticabal, afilhado do chefe político daquela cidade, o coronel Juca Vaz. Aliás, também Ezequiel era afilhado do coronel jaboticabalense e frequentavam a loja maçônica Fé e Perseverança.
Juntos, Ezequiel e Pedro Amaral reuniram os negociantes e fazendeiros mais destacados do distrito e iniciaram uma campanha política para criação do município de Rio Preto. Com o apoio dos vereadores de Jaboticabal, chefiados por Juca Vaz, em 19 de julho de 1894 era criado o Município de Rio Preto, pelo governador Bernardino de Campos. Ainda naquele ano, em outubro, foi realizada a primeira eleição e Pedro Amaral foi eleito vereador e presidente da Câmara. Ezequiel foi agraciado com o cargo de procurador da Câmara Municipal, um dos cincos cargos remunerados do novo município.
Em 1897, Ezequiel levou Pedro Amaral a Jaboticabal, para inicia-lo nos mistérios da maçonaria. A exemplo do príncipe regente D. Pedro, o neófito Pedro Amaral foi iniciado, elevado e exaltado na mesma noite (percorrendo em algumas horas pelo menos três anos de frequências e trabalhos que um iniciado normal levaria para chegar ao grau de mestre). Com isso, Ezequiel e Pedro puderam fundar em Rio Preto, em 1º de abril de 1897, a Loja Maçônica Avanhandava.
Quando Adolpho chegou, um intrépido jovem de 24 anos, letrado e ambicioso, ele logo foi apresentado aos futuros padrinhos de casamento, o cacique político Pedro Amaral, presidente da Câmara Municipal, e Valêncio José Barbosa, também vereador. Foi nomeado professor da Escola Municipal Mista — nomeado em 04/10/1897 e exonerado 02/03/1898. No mesmo período, foi iniciado na maçonaria.
Em menos de quatro anos, ele articulou-se politicamente de tal forma que, em 7 de fevereiro de 1899, fundou sua própria loja maçônica, a Cosmos (existente até hoje), coadjuvado por seu tio e sogro Ezequiel, pelo primo e cunhado Lindolpho Guimarães Corrêa e mais cinco maçons, dentre eles o fundador da cidade, João Bernardino de Seixas Ribeiro, completando 80 anos.
Ezequiel foi eleito venerável, mas era Adolpho que controlava o quadro de irmãos. Em menos de seis meses, foram iniciados 25 novos irmãos, a maioria jovens entre 22 e 20 anos de idade, de olho na eleição municipal que ocorreria em 1900. Quando a eleição chegou, Adolpho tinha na Cosmos um pequeno exército de pelo menos trinta irmãos à sua disposição. Ele enfrentou o status quo sob domínio do padrinho e coronel Pedro Amaral. Formou sua própria chapa de candidatos e venceu a eleição, elegendo quatro dos cinco vereadores. O único “estranho” era o professor de música José Severino do Amaral Sales, meio irmão de Pedro Amaral, que tomou posse e renunciou na segunda sessão. O afilhado Adolpho destronou os padrinhos e iniciou um “reinado” que duraria de 7 de janeiro de 1901 a 24 de agosto de 1914, primeiro como presidente do Legislativo e depois como prefeito.
Como chefe da maçonaria, ele foi venerável da Cosmos de 1901 a 1911 e, quando deixou a liderança, seu braço direito, o português Belmiro José Gomes, assumiu o comando da loja até 1915. Como maçom, Adolpho instalou, em 1901, um gabinete de leitura (primeira biblioteca com livros destinados também aos nãos maçons), uma escola noturna para educação de jovens e adultos. Em 1902, criou a revista Cosmos, primeiro órgão de imprensa da cidade, e fundou, em 1909, o Hospital de Caridade, que deu origem à atual Santa Casa de Misericórdia, atendendo ao pedido de um de seus iniciados na maçonaria, o comerciante baiano Theodoro Rodrigues de Nazareth, falecido em 1901.
Na parte da política, ele se notabilizou por ser protagonista histórico dos grandes eventos primordiais para o desenvolvimento econômico da cidade: a instalação da Comarca, em 1904, e a chegada do trem, em 1912.
De olho na comarca, ele fundou em 12 de julho de 1903, o jornal O Porvir, onde seriam publicados os editais da justiça. Como advogado, ele não perdia causas e ganhou fama no sertão. Chegou a ser juiz substituto de 9 de janeiro a 9 de fevereiro de 1911, assim como seu sogro, por várias vezes foi juiz substituto e muitos de seus amigos foram promotores e delegados de polícia substitutos.
Em 1901, ele conquistou a instalação do 217º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional, tornando-se Coronel e tenente-coronel comandante, formando três companhias com majores, capitães, tenentes, alferes.
Tornou-se então o Coronel Adolpho.
Em junho de 1904, a cidade viveu uma grande agitação por causa da criação da comarca. Uma notícia espalhou-se no povoado: o coronel Adolpho estava vindo da capital trazendo os documentos governamentais confirmando a instalação da Comarca. Saíra de São Paulo, de trem até Araraquara, onde fez baldeação e pegou a maria fumaça para desembarcar na estação Carlos Magalhães, no bairro rural de Poço Fundo, no município de Taquaritinga. Era a última estação. De lá até Rio Preto, eram mais ou menos 100 quilômetros de viagem a ser feita a cavalo e de trole.
Ele foi recepcionado por mais de 250 cavaleiros na altura do Retiro (próximo ao atual prédio da Escola Pio X), no alto no bairro Santa Cruz. Ovacionado e aplaudido, os cavaleiros o acompanharam até o centro da cidade, onde quase toda a comunidade da vila de Rio Preto estava aglomerada, à sua espera, ao som de banda musical e fogos de artifício. O povo estava exultante e, neste contexto de festa cívica, o escolhido para saudar o coronel Adolpho foi o médico italiano Fileno Faggiani.
Seu poder político dessa recepção gloriosa, tornou-se tão grande que, ainda em 1904, a principal rua da cidade, a Luiz Antonio da Silveira, teve seu nome trocado para “Rua Coronel Adolpho Guimarães Corrêa” (é a atual a rua Bernardino de Campos). Nesta rua, ele mandou construir uma mansão com 19 cômodos, com frente para rua com seu nome e fundos para atual rua General Glicério. A casa e o quintal ocupavam todo o espaço do atual Praça Shopping.
O povoado de Catanduva, com o nome primitivo de São Domingos do Cerradinho, passou se chamar Vila Adolpho. A vila de Jataí, pleiteando a criação do distrito, teve seu nome trocado para Tanabi, por escolha dele.
Após consolidar a instalação da Comarca, ele iniciou as tratativas políticas para instalar as primeiras redes de água, privatizou o serviço de iluminação pública, e deu início ao sistema de telefonia, também privatizado.
A chegada da estrada de ferro teve duas grandes comemorações públicas. A primeira em janeiro, quando os trilhos chegaram. Os trabalhadores da estrada foram agraciados com um lanche e discursos inflamados sobre o progresso que o trem representava. Depois, em junho, outra grande festa, com direito a um banquete para 200 talheres e baile de gala, na recepção às autoridades políticas e aos diretores da Estrada de Ferro Araraquarense – EFA. Tudo registrado em uma revista paulistana.
Foi dele a iniciativa de pôr um fim ao pagamento de enfiteuse (um imposto medieval que se pagava à Igreja Católica na transmissão de imóveis urbanos). Ele lutou pela conclusão da abertura da estrada do Taboado, ampliando o comércio com Santana do Paranaíba, no Mato Grosso. Ele entendia que o futuro do comércio era o Oeste, rumo a Paranaíba e Cuiabá.
Em um de seus escritos, ele previu a construção de avenidas ao longo dos córregos Canela e Borá como fator de desenvolvimento econômico, chamando-os de futuros “boulevards franceses” e, acreditava que Rio Preto seria “a Chicago do Brasil”. A cidade demorou mais de 50 anos para drenar e urbanizar as margens dos dois córregos.
Claramente anticlerical, ele foi nomeado fabriqueiro da paróquia de São José (administrador dos bens da Igreja Católica) e, defendeu ferrenhamente a liberdade de expressão religiosa, exigindo que a polícia não prendesse os pastores que por ventura vinham fazer pregações na cidade. Até então, era comum os pregadores evangélicos serem presos a mando do padre Antonio Purita.
No início da década de 1920, já residindo em São Paulo, ele promoveu um loteamento urbano no enclave do rio Preto e do córrego Canela e, deu-lhe o nome de Vila Ercília, em homenagem à sua filha, nascida em 1912.
Nos anos de 1930, integrou o grupo de acionistas que fundou a Casa Bancária Edgard Caramuru, que entre outras coisas, construiu o Edifício Caramuru (o primeiro arranha-céu da cidade), onde hoje funciona o Hotel Itamarati. inaugurado em 24 de dezembro de 1939.
O coronel Adolpho tinha hábitos considerados estranhos pela população. Por exemplo, quando ia ao cinema, com a esposa e os filhos, ninguém podia entrar. Ele pagava para que apenas sua família ocupasse a sala. Quando viajava de trem, alugava um vagão apenas para seus familiares. Seus filhos dificilmente eram vistos na rua.
Em 1914, ao renunciar à Prefeitura, ele se mudou com a família para São Paulo, morando em uma mansão de sua propriedade na rua Dona Veridiana, 64 (atual edifício Villaggio Di Caprio), no Higienópolis, bairro nobre da capital; mas, continuou mantendo negócios e vínculos em Rio Preto; tanto que, em 1928 voltou a ser eleito presidente da Câmara Municipal.
Morando em São Paulo, Adolpho ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, formando-se em 1923 e continuou advogando.
Adolpho e Maria Ermelinda tiveram nove filhos. Por ordem alfabética: Adolpho, Adolpho Filho, Agenor, Amélia, Carlos, Ercília, Ida, Maria e Rosalina.
Maria, nasceu em 24 de setembro de 1901 (seu atestado de óbito, lavrado em 22 de junho de 1987, diz que nasceu em 3 de setembro de 1900). Foi batizada em 31 de maio de 1902, e teve como padrinhos os tios Lindolpho Guimarães Corrêa e Amélia Guimarães Corrêa, com celebração feita pelo padre Francisco Silvestre de Moura.
Adolpho, nascido em 1 de setembro de 1904, foi batizado em 3 de setembro, tendo como padrinhos os avós maternos, Ezequiel e Rozalina Augusta Corrêa. O sacramento foi ministrado pelo padre Antonio Purita. A criança faleceu dia 8 de fevereiro de 1905, segundo registrou o seu jornal, O Porvir.
Adolpho Filho nasceu em 12 de novembro de 1905. Formou-se em Direito e casou-se em 17 de dezembro de 1955, com a prima Lourdes Tavares de Oliveira, nascida em Rio Preto, em 15 de março de 1916, filha de Benedicto Tavares de Oliveira e Rosalina Guimarães de Oliveira, batizada por Adolpho e Maria Ermelinda, em 2 de junho de 1916, em cerimônia realizada pelo padre Manoel Theotônio de Macedo Sampaio.
Agenor nasceu em outubro de 1907 e foi batizado em 3 de setembro de 1908, pelo padre Antonio Purita. Os avós paternos, Cyrillo e Amélia, foram os padrinhos.
Carlos nasceu em 14 de setembro de 1909 e foi batizado dois dias depois, pelos tios Sebastião Guimarães Corrêa e Maria Corrêa, com o padre Antonio Purita. Ele se casou com Yolanda Cunha, com quem teve os filhos Adolfo José e Conceição.
Rosalina nasceu em 13 de julho de 1911, foi batizada em 19 de julho, pelos avós paternos Ezequiel Guimarães Corrêa e Amélia Augusta Corrêa. A cerimônia foi celebrada pelo cônego José Augusto Leite.
Hercília nasceu em 23 de setembro de 1912, batizada em 5 de outubro, pelo médico Aristides Serpa e dona Francisca Serpa, pelas mãos do padre Joaquim Antonio do Canto.
Amélia é a única de quem não temos nenhuma informação.
Sobre Ida Guimarães Corrêa também faltam dados pessoais. Existem dois documentos da Igreja Católica em que ela aparece como madrinha de batizados: o primeiro, de 12 de fevereiro de 1916, quando batizou, ao lado de Gerônimo Alves Pereira, a menina Geralda, nascida em 7 de agosto de 1915, filha de José Felix da Silva e Leonor da Silva Corrêa. O segundo, em 2 de fevereiro de 1919, quando ela batiza, ao lado do primo Lindolpho, o menino Décio, também seu primo, nascido em 6 de novembro de 1918, filho de Benedito Tavares de Oliveira e Rosalina; mesmo dia em que foi batizado Amir, nascido em 2 de novembro, filho dos primos Gilberto Lex e Olinda Guimarães Lex.
Adolpho faleceu vítima de trombose cerebral, provocada por bronquite asmática crônica e arteriosclerose generalizada, segundo o atestado de óbito assinado pelo médico Celestino Bourroul. Segundo o declarante, Raul Votta, ele faleceu às 10h30 da manhã, do dia 27 de agosto de 1943, em sua residência, faltando três meses para completar 70 anos.
Maria Ermelinda faleceu em Rio Preto, às 21 horas, de 12 de outubro de 1956, de acordo com declarante Benedicto Tavares de Oliveira, seu cunhado e compadre, casado com sua irmã Rosalina Guimarães de Oliveira. O atestado de óbito foi assinado pelo médico Edgard Archimedes Beolchi.
Ao morrer, Adolpho deixou um arquivo de aço com quatro gavetas, fechado com cadeado, que ficou na guarda do filho Carlos. No início dos anos 2000, o neto do coronel, Adolfo José Guimarães Corrêa, abriu o arquivo e entregou toda a documentação, como cópias de processos judiciais, notas fiscais, cartões de visita, e uma coleção dos jornais O Porvir e O Poder Moderador/A Cidade ao historiador e jornalista Lelé Arantes. Excetuando a coleção de jornais, todos os documentos foram entregues ao Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de São José do Rio Preto – IHGG e, os cadernos de O Porvir e de O Poder Moderador/A Cidade foram fotografados por Néia Rosseto, contratada pela Secretaria Municipal de Cultura, por iniciativa de Pedro Ganga e, a coleção em papel, foi entregue à Hemeroteca Prof. Dario de Jesus/Arquivo Municipal ao diretor Fernando Marques.
Texto: Lelé Arantes
Foto: Acervo de Adolfo José Guimarães Corrêa
