
No dia 21 de janeiro de 1912, chegava a Rio Preto a ponta dos trilhos da Estrada de Ferro Araraquarense – EFA. Os trabalhadores foram recebidos com um lanche, oferecido pela Liga Operária Internacional, que formou uma comissão integrada por Paulo Bongiorno, Vírgilio Bonvino e J. Dumas para recepcioná-los, sob os acordes da banda musical Lira Riopretense. Houve discurso do advogado e vereador João Odorico da Cunha Glória, do jornalista e professor José Palma, que era diretor da Liga Operária e do jornal O Poder Moderador, e do engenheiro da estrada, João Caetano. O pessoal “superior” da estrada ganhou um banquete no Hotel Luso-Brasileiro. José Palma, que era militante socialista, entregou ao maquinista Benedicto Vieira uma medalha de ouro, com corrente, em reconhecimento popular.
Mas a inauguração oficial só aconteceu seis meses mais tarde em 9 de junho de 1912. Foi o tempo que se gastou para construir a estação. Neste dia, a Banda Lira Riopretense começou a festa ainda com sol claro, na parte da tarde. O trem inaugural, que era previsto para chegar à estação às 20 horas, só chegou às 23h20. O atraso, de mais de três horas, não desanimou os moradores de Rio Preto que aguardavam na estação. As autoridades, que vieram no trem, foram saudadas por discursos de Mário Cunha e Rosita de Almeida. Pouco depois da meia-noite, teve início o banquete organizado pela Câmara Municipal, na própria Estação, com cem talheres. O prefeito Adolpho Guimarães Corrêa, o fundador da Estrada de Ferro Araraquarense, Carlos Magalhães, e o seu presidente, Álvaro de Menezes, mais o secretário da Agricultura, Januário dos Santos Nova, encabeçaram os comeres. Na comitiva do trem inaugural vieram também, para a festa, o deputado federal Marcolino Barreto, o deputado estadual Elias da Rocha Barros, os prefeitos Bento de Abreu Sampaio, de Araraquara, e Leão Pio de Freitas, de Matão, e jornalistas de São Paulo, Campinas, Araraquara, Jaboticabal e Taquaritinga. Depois do banquete, foi realizado um baile de gala no Éden Parque, com duzentos convidados.
Ainda em 1912, o plano era estender os trilhos até Cuiabá. Fazia quatro anos que o governo estadual havia autorizado o prolongamento até Rio Preto, partindo da estação de Fernando Prestes, na altura do km 117. Mas em 30 de março de 1916, o decreto estadual 2.652 incorporou a EFA ao patrimônio da São Paulo Northern Railroad Company e, em 1918, a estrada passou se chamar Estrada de Ferro São Paulo Norte. Sob a presidência do advogado francês Paul Deleuze, a empresa São Paulo Northern Railroad Company, fundada nos Estados Unidos, sucateou a ferrovia, cujos trilhos ficaram paralisados em Rio Preto. Em 1919, o governo estadual desapropriou a ferrovia, tirando do comando de Deleuze.
Em 1933, já com o nome de Estrada de Ferro Araraquara, a EFA deu prosseguimento aos trilhos que estiveram parados em Rio Preto, o que emprestou para a cidade a fama de “ponta dos trilhos”. Essa paralisação beneficiou a economia da cidade porque toda produção das cidades e vilarejos vizinhos, após Rio Preto, tinha que ser transportada até a estação para carregamento. Todos os viajantes eram obrigados a vir a Rio Preto para embarque e desembarque. Durante vinte e um anos, a cidade foi o ponto de convergência regional por causa da “ponta dos trilhos”.
O historiador Pierre Monbeig assinala na página 348, do seu livro “Pioneiros e Fazendeiros de São Paulo”:
“Já foi frequentemente assinalada a importância, no Brasil, das cidades que se chamam ‘boca do sertão’, as quais se situam na orla das zonas em que começa a penetrar o povoamento, bem como das cidades denominadas ‘pontas de trilhos’, terminais provisórios das ferrovias. Ambas as situações são evidentemente privilegiadas.”
Na página seguinte, Monbeig diz:
“Em Rio Preto, remontaria o primeiro estabelecimento a 1842, mas foram insignificantes os progressos até o início do século XX. O impulso foi verdadeiramente desencadeado com a chegada dos primeiros trens, em 1912: de 120 fogos em 1898, passou a cidade a mais de 2.000 casas, em 1919; subiu a receita municipal de 100.000$000, em 1912, a 320.000$000, em 1917, e 470.000$00, em 1919. Torna-se, então, Rio Preto o centro para o qual convergem as colheitas de uma região imensa…”
No dia 27 de março de 1951, o governador Lucas Nogueira Garcez assinou decreto autorizando a EFA a executar as obras para alargar a bitola da ferrovia, numa audiência em que estiveram presentes o prefeito de Rio Preto, Cenobelino de Barros Serra, o de Taquaritinga, Area Leão, e o diretor da estrada, Osvaldo de Almeida. Em maio de 1951, o vereador Renor Pereira Braga iniciou campanha contra a EFA por ter fechado a rua XV de Novembro, “de forma arbitrária”, ao construir a nova Estação Ferroviária.
Em 30 de setembro de 1955, foi inaugurada a bitola larga, com a EFA trazendo para a festa, em Rio Preto, o ministro da Viação e Obras Públicas, Otávio Marcondes Ferraz, o secretário estadual de Viação, Caetano Álvares e o diretor da empresa, Orlando Murgel.
Prosseguindo o plano de extensão, em 1952 os trilhos da EFA chegaram a Rubinéia, antigo Porto Tabuado, e lá ficaram paralisados até 29 de maio de 1989, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso inaugurou a ponte rodoferroviária, permitindo à Ferronorte a retomada da extensão da linha rumo a Cuiabá.
Em 1972, a EFA passou a chamar-se Ferrovia Paulista S/A – Fepasa. Recentemente, a estrada foi privatizada e passou a chamar-se Ferroban, dando passagem aos trens de carga da Ferronorte.
No final dos anos de 1990, o transporte ferroviário de passageiros foi paralisado. A lentidão da viagem de Rio Preto a São Paulo, entre 10 e 12 horas, e o custo parado e a viagem rápida do transporte rodoviário são os principais argumentos para a paralisação.
Fonte: www.quemfazhistoria.com.br; http://guaiaca.ufpel.edu.br/handle/123456789/2152 – dissertação de André Luiz da Silva, Pelotas/RS. 2013
