Loja Cosmos, 126 anos de atividades


A Loja Maçônica Cosmos, que no dia 7 de fevereiro de 2025, completou 126 anos de atividades — tendo um pequeno período de interrupção, entre novembro de 1937 e 13 de janeiro de 1940 por causa da ditadura de Getúlio Vargas — é a instituição mais antiga em funcionamento em São José do Rio Preto. Fruto de suas atividades, a Santa Casa de Misericórdia, é a segunda mais antiga, fundada em 1º de janeiro de 1909.
A Cosmos iniciou suas atividades na noite de uma terça-feira, às 21 horas, conforme o registro Ata nº 1, adotando o rito moderno. Foram oito fundadores: Adolpho Guimarães Corrêa, Benedicto Tavares da Silva Lisboa, Ezequiel Guimarães Corrêa, João Bernardino de Seixas Ribeiro, Joaquim Fernandes Gonçalves, José Teixeira de Camargo, Lindolpho Guimarães Corrêa e Manoel Leão. Delmiro Corrêa, então prefeito rio-pretense, foi aceito como fundador, mas ele não esteve presente à reunião de fundação.
Coube a João Bernardino presidir a reunião de fundação por ser “o mais idoso em idade civil”. Ele completaria 80 anos no dia 19 de fevereiro. Ezequiel, iniciado na Loja Fé e Perseverança, de Jaboticabal, no dia 12 de setembro de 1889, foi escolhido para ser o primeiro venerável da nova loja maçônica da cidade. Dois anos antes, em 1º de abril de 1897, Pedro Amaral e Ezequiel haviam fundado a Loja Maçônica Avanhandava.
Entre a fundação e a regularização, ocorrida em 9 de setembro, passaram-se sete meses. Nesse período, a Cosmos realizou 36 seções e iniciou 24 novos maçons, recebendo a adesão de três mestres oriundos da Avanhandava: Valêncio José Barboza, Ernesto de Assis Bemfica e Theodolino José de Paula. A regularização — cerimônia importante na maçonaria por dar validade à existência da loja — foi presidida por Pedro Amaral, por determinação do Grande Oriente do Brasil – GOB.
Duas das grandes preocupações dos maçons da loja Cosmos eram a educação e a saúde, extremamente precárias na cidade. O que era, também, uma preocupação da Loja Avanhandava. Em outubro de 1901, a Cosmos iniciou a discussão para a criação de uma escola noturna para educação de jovens e adultos. Manoel Leão, secretário da Câmara Municipal, se ofereceu para dar aulas gratuitamente.
Com a ideia bem adiantada, formou-se uma comissão integrada por José Félix da Silva, Belmiro Gomes, Bernardino Mendes de Seixas e Ernesto de Assis Bemfica para redigir o regimento da escola. As primeiras aulas tiveram início em março de 1902, mas a escola foi mantida com grandes dificuldades financeiras, a ponto de, no dia 2 de setembro, o venerável Ezequiel Corrêa desistir do cargo de diretor, argumentando que faltava dinheiro até para comprar velas ou querosene. No escuro era impossível lecionar.
Ainda em 1901, dois fatos interessantes movimentaram a Cosmos: a criação de um Gabinete de Leitura, proposta por Adolpho Corrêa, com disponibilização de livros não maçônicos para o público em geral. Criava-se, dessa forma, a primeira biblioteca de acesso público da cidade; e, em dezembro, moribundo no leito, o comerciante e maçom, nascido em Salvador na Bahia, com 41 anos, Theodoro Rodrigues de Nazareth convocou seus irmãos de loja para anunciar a doação de um terreno para que fosse construído um hospital tipo Santa Casa. É preciso lembrar que em 1901, a cidade não tinha nenhum médico; o primeiro, chegaria somente em 1904. Foram sete anos de espera até o terreno ser liberado no inventário, o que aconteceu no finalzinho de 1908. No dia 1º de janeiro de 1909, era fundado o Hospital de Caridade, que deu origem à Santa Casa de Misericórdia.
No dia 22 de maio de 1901, foi aprovada pela loja a publicação de uma revista de “sciencias, letras e artes”, sugerida por Adolpho Corrêa, cuja distribuição seria de âmbito nacional, dirigida para lojas maçônicas por meio de assinaturas. Para Adolpho, a revista deveria ser lucrativa para colocar dinheiro no caixa e auxiliar nas despesas. Neófitos sobre os serviços gráficos, a primeira edição só saiu em 15 de janeiro de 1902, com 400 exemplares a um custo de 85$800 (oitenta e cinco mil e oitocentos réis). A iniciativa provou ser bastante lucrativa. O balancete de despesas de 1902 mostrou que os dois primeiros números da revista haviam rendido uma receita de 2:000$000 (dois contos de réis). Com os custos orçados em 1:200$000 o lucro líquido fora de 800$000 (oitocentos réis). Apesar disso, só saíram mais dois números. A Revista Cosmos é o primeiro meio de comunicação impresso produzido na cidade, a precursora da imprensa rio-pretense.
Vinte anos mais tarde, em março de 1920, a loja lançou o jornal semanal A Ordem, sob a direção de Belmiro Gomes, que havia dirigido por muitos anos O Porvir. Era um jornal aberto ao público externo, visto como fonte de renda. Durou dois anos. Cinquenta anos mais tarde, foi lançado O Compasso, sob a responsabilidade de Wuylimar Damas e Antonio Emílio de Siqueira Filho, em maio de 1971. Mas, era um jornal voltado para o público interno da maçonaria. Não durou muito tempo. Em 15 de maio de 1983, A Notícia publicou um encarte sobre a história da loja. A experiência de ter seu próprio veículo de comunicação voltou em 1999, com o lançamento da Revista Cosmos, por sugestão de Toufic Anbar Neto, sendo pulicadas seis edições.
No ano de 1945, a Cosmos engajou-se em um grande embate político ao lado da população: impedir a construção do edifício Fórum na praça D. José Marcondes. As reportagens sobre esse projeto fizeram a população de Rio Preto se levantar contra a ditadura do governo de Getúlio Vargas e dizer não ao governador e ao prefeito nomeados. Os maçons da Cosmos também se envolveram em outras lutas populares como em 1999, quando integraram a Comissão de Defesa da Cidadania – CDC com a presença firme e decisiva de Germano Hernandes Filho, Nicanor Batista Júnior, Wilson Focássio e Pedro Lúcio de Salles Fernandes, participando ativamente do Projeto SANAR, que marcou o início da discussão sobre os problemas futuros no serviço de águas e esgotos da cidade que desembocaria, mais tarde, na criação do SEMAE, na construção da estação de tratamento de esgotos e, agora, no projeto que busca água no rio Grande, em Icem.
A presença da Cosmos e dos maçons pode ser detectada em várias obras, movimentos e instituições rio-pretenses, como a Liga Rio-pretense de Combate à Tuberculose, o Instituto Rio-pretense dos Cegos Trabalhadores – IRCT, a FULBEAS, o Hospital Dr. Bezerra de Menezes, a Rede Integrativa de Televisão (TV da Cidade) além de participar com apoio financeiro em dezenas projetos e entidades da cidade.
Durante os 126 anos de existência, a Loja Cosmos realizou suas reuniões em imóveis alugados e adaptados, mas logo depois, ainda nos anos de 1920, construiu seu primeiro templo em imóvel próprio. No total, foram três:
Primeiro, na Voluntários de São Paulo, entre Silva Jardim e Marechal Deodoro.
Segundo, na rua Antonio de Godoy 3364, imponente edifício projetado por Antonio Bahia Monteiro, cuja construção foi administrada por Alberto Andaló e Vicente Filizola.
Terceiro e atual, é um moderno edifício, sobre projeto arquitetônico de José Carlos de Lima Bueno na Antonio de Godoy 6010, perto do Riopreto Shopping Center. O venerável do centenário de fundação da loja, Odival Abrão Jana, administrou a construção do novo templo, coadjuvado por vários irmãos como Nicanor Batista Júnior, Germano Hernandes Filho, Eduardo Gorayeb, Celso Eduardo Vieira Barreto e muitos outros.
A história da Cosmos está entranhada na história de São José do Rio Preto. Quase uma centena de avenidas, ruas e praças levam nome de seus filiados, começando pelas avenidas Aberto Andaló, Bady Bassitt, Cenobelino de Barros Serra, Danilo Galeazzi, João Bernardino de Seixas Ribeiro, Solon Varginha e Vicente Filizolla, assim com a praça Ugolino Ugolini (praça da Maceno) e o bairro Mançour Daud.
No campo da política, a Cosmos deu à cidade 11 prefeitos, 22 vereadores e quatro deputados. Alberto Andaló (1956/1959) foi o último prefeito maçom, José Mário Soares de Carvalho (1977/1982) o último vereador e Bady Bassitt (1959/1960) o último deputado estadual. Andaló foi deputado estadual e também federal.
Atualmente, a Cosmos realiza uma festa anual, iniciada em 3 de julho de 1993, com o nome de Costilhar. A primeira edição foi realizada pelo venerável José Luiz Peres Cruz, no clube dançante Sarau, que ficava na Estrada da Matinha. A segunda edição, feita pelo venerável José Ferraz Teixeira, aconteceu no antigo Presidente Praia Clube, sendo depois realizada por vários anos na AABB e, no ano passado, foi realizada no clube de campo do Monte Líbano. A partir de 2009, sob a coordenação de Mauricio Bellodi, o formato da festa mudou, passou-se a buscar patrocínios e a renda foi destinada para instituições assistenciais como a Só Por Hoje, FULBEAS, ARCD, Ninho do Bebê. Com seu crescimento e reconhecimento popular, a festa entrou definitivamente para o calendário de eventos da cidade.
Atualmente, seu venerável é Alexandre Casseb, é o 61 º cidadão a ocupar este posto.
Texto: Lelé Arantes; colaborou Mauricio Bellodi
Foto: Edson Baffi
