
A fundação do Rotary Clube São José do Rio Preto sofreu um atraso de nove meses por causa do preconceito do monsenhor Gonçalves que via a nova instituição como uma “sociedade secreta”, tipo maçonaria, que nos seus primórdios era frontalmente anticlerical. Para o sacerdote Manoel Joaquim Gonçalves, mais tarde cognominado Monsenhor, o Rotary poderia “produzir danos que não se reparem facilmente, nem sempre”.
O primeiro encontro para a fundação de um clube rotário em Rio Preto ocorreu 13 de fevereiro de 1935, no Rio Preto Automóvel Clube, “em uma reunião de cavalheiros da nossa melhor sociedade”, como registrou em primeira página o jornal Diário da Araraquarense. “Os trabalhos da reunião foram orientados pelo sr. Jones H. Roth, representante do Rotary International, de Chicago, que aqui se encontra para este fim”, escreveu o jornal, errando o nome do visitante, que na verdade era James. Uma nova reunião foi marcada para o dia 14, às 19h30, mas não houve registro na imprensa do seu resultado.
Mas, em 17 de fevereiro, os leitores do Diário da Araraquarense e os futuros rotarianos foram surpreendidos por um extenso artigo assinado por monsenhor Gonçalves, orientando os cidadãos católicos a não aderirem ao Rotary. Após longo arrazoado, que demonstrava total desconhecimento dos objetivos rotários, o padre encerrava seu artigo com esta advertência: “e do que deixo dito, já pode deduzir-se que é medida de prudência que os católicos não se prendam a tal associação, que tem a servi-la, com dedicação e com empenho, indivíduos convictos e praticamente protestantes, cuja convivência, assim mais constante e mais obrigada, pode ser de intuitos sectários, e produzir danos que não se reparem facilmente nem sempre”.
É claro que a influência de monsenhor Gonçalves deve ter colaborado para atrasar a fundação do Rotary. Roth fez uma terceira reunião com os rio-pretenses, no dia 18 de fevereiro, deixando claro que o clube era uma instituição humanitária visando a incentivar o bem comum. Ele acentuou que não importava o credo religioso ou a filiação política de seus sócios e procurou ressaltar que “é até proibido, no grêmio, discutir matéria destes dois círculos de conceitos.” Ele explicou que o Rotary não era uma instituição “ateia ou agnóstica. Pelo contrário, cada membro deve, mesmo, ser exato cumpridor das suas obrigações religiosas e exemplar militante na esfera política.” Da reunião participaram Amin Suriani, Coutinho Cavalcanti, Felippe Lacerda, Jacintho Angerami, João Braga, José Nogueira de Carvalho, Manoel de Souza Varella, Marcondes Machado, Mário Valadão Furquim, Olympio Rodrigues, Plínio Fleury, Synésio de Mello e Oliveira e Themístocles Berardinelli que marcaram nova reunião para dia 21, às oito da noite, no Paço Municipal.
No dia 30 de março, o Diário da Araraquarense, sob a direção editorial de Felippe Lacerda, publicou uma nota na primeira página informando que Carlos Pacheco Fernandes havia sido eleito presidente do Rotary Club de São Paulo. Não temos informações a respeito da querela levantada por monsenhor Gonçalves, mas certamente os fundadores foram ao bispo D. Lafayette Libânio para explicar a situação e apaziguar a ira do padre, que não atentou para a presença do prefeito Synésio e do ex-prefeito Alceu de Assis, católico praticante, entre os pioneiros. Era um grupo que reunia, entre outros, cinco comerciantes, quatro advogados e três médicos.
Somente em 29 de novembro, nove meses após a primeira reunião, A Notícia trazia em manchete do dia, na página 4: “Está fundado o Rotary Club de Rio Preto. A sua instalação será dia 4 de dezembro próximo”. Mais vez, James Roth estava presente e aqui ficou até o dia da primeira reunião e eleição da primeira diretoria. Da reunião oficial de fundação participaram: Alceu de Assis, Antonio Coriolano Caldas, Carino Alberto do Espírito Santo, Coutinho Cavalcanti, Edgard Vieira Cardoso, Eros do Amaral, Herbert Harrison Mercer, J.B. Marcondes Machado, J. Borges de Carvalho, Jacintho Angerami, José Nogueira de Carvalho, Mário Valadão Furquim, Synésio de Mello e Oliveira e Theotônio Monteiro de Barros Filho, João Braga e Gumercindo Ferraz Frota mandaram representante. Dois médicos de renome foram eleitos presidente e vice-presidente: José Borges de Carvalho e Mário Valadão Furquim. O ex-prefeito e advogado Alceu de Assis foi eleito secretário.