Horário de verão. Sol ardente. Firmamento azul. Vítreo. Tarde charmosa cheia de dengo, esperando pelo anoitecer.
Trafegava pela Alberto Andaló, a mais charmosa avenida de minha cidade, quando o sinal fechou e no cruzamento, um rapaz de seus trinta anos carregado de badulaques, aproximou-se do meu carro e ofereceu-me um protetor solar para veículos. Hora perfeita para vender tal apetrecho.
Perguntei-lhe quanto custava.
Resposta imediata: — dezessete real.
Retruquei-lhe que era caro e se não poderia fazer um abatimento. Olhou-me gravemente. Disse-me que não, porque se tirasse um reais, não teria dinheiro nem para almoçar.
Como achei extravagante a concordância, insisti na pergunta e obtive resposta idêntica:
— Dezessete real.
— E o desconto?
— Se tirar um reais, não almoço.
Permaneci séria. Morrendo de vontade de rir. Ele circunspecto precisando ganhar seu dia de trabalho.
Perguntei pela terceira vez, só para ouvir aquela maravilha de resposta. Gentilmente respondeu-me do mesmo modo.
Dezessete real.
— E o desconto?
— Se tirar um reais, não almoço.
Lembrei-me, claro, de Oswald de Andrade e da sua contribuição milionária de todos os erros.
Aberto o sinal retomei meu rumo explodindo em sonora gargalhada, contida até então, em respeito ao cidadão que de forma honesta ganhava seu sustento.
Durante o restante do trajeto, refleti sobre as dificuldades e fascínios da nossa língua e do nosso povo.
Comprei o tal protetor, não porque precisasse ou gostasse do dito cujo, mas pelo prazer de ouvir de modo tão encantador, tamanha transgressão a nossa gramática.
