QUEM e o QUE

são HISTÓRIA na

QUEM e o QUE são HISTÓRIA na

João Bernardino de Seixas Ribeiro imigrou de Casa Branca – SP, acompanhando o pai, Antonio Bernardino de Seixas Ribeiro, por volta de 1850. Sua família teria recebido do imperador D. Pedro II, uma gleba de terra com 17.960 alqueires, onde hoje está situado o município de Ibirá – SP. O pai e os irmãos de João Bernardino fixaram residência no local denominado Taperão, atualmente conhecido como Vila Ventura, a poucos quilômetros de Ibirá.

João Bernardino preferiu sair do seio da família. Ele e sua mulher Mariana Ignácia, seus escravos e agregados, mudaram-se para a região do rio Preto e, por volta de 1851, na altura onde hoje se situa a esquina das ruas Voluntários de São Paulo e Tiradentes, na margem do Picadão (estrada de terra que ligava São Paulo a Cuiabá), ele construiu uma casa de pau-a-pique em terreno que havia sido doado por Antonio Carvalho da Silva à igreja católica para a formação do patrimônio de São José.

Sua casa foi a primeira a ser erguida no espaço territorial que deu origem à cidade de São José do Rio Preto, bem próxima de um aldeamento de índios Guarani, onde hoje está a praça Rui Barbosa. Apesar da existência de mais de uma centena de famílias morando na região, espalhadas em fazendas e roçados, foi João Bernardino quem deu início à povoação do patrimônio de São José e por isso ele é apontado como fundador da cidade.

No ano seguinte, em 19 de março de 1852, João Bernardino teria reunido as famílias mais próximas para realizar uma festa religiosa em louvor a São José e aproveitou o momento para coletar assinaturas e redigir uma carta à Câmara Municipal de Araraquara pedindo a criação de um Distrito de Paz no bairro de Rio Preto. Esse documento é usado como a data de fundação de São José do Rio Preto.

Para fundar uma cidade, alguns elementos são essenciais: patrimônio e pessoas interessadas. Na falta de um, haviam três patrimônios: o de São José, o de Nossa Senhora do Carmo e o de São Vicente Ferrer. Se haviam três doações, haviam também diversas versões para elas. Cada pessoa que escreveu sobre elas informou algo diferente. Ugolino Ugolini, Oiticica Lins, Basileu Toledo França, Carlos Rodrigues Nogueira, Leonardo Gomes, padre Carlos Bracci e Agostinho Brandi apresentam a sua versão. Há também a versão que foi arrolada no processo que envolveu a Câmara Municipal e a Igreja Católica a respeito da cobrança de enfiteuse, ou laudêmio.

Acompanhando de perto o seu esforço em busca da verdade e suas inúmeras e acuradas pesquisas, o professor Brandi parece ser o que mais se aproxima da realidade dos fatos a respeito dessas doações. Uma das doações jamais foi concretizada: a de São Vicente Ferrer, que teria sido feita por Vicente Ferreira Neto, de uma área onde hoje estão os bairros Bom Jesus e Santa Cruz. Essa área nunca esteve na posse da Igreja Católica.

 O padre Carlos levantou documento muito curioso, assinado pelo primeiro pároco José Bento da Costa, com data de 17 de novembro de 1894. No documento, padre Bento afirma que a área da Matriz (entre os córregos da Canela e Borá) teriam sido doadas a São Vicente Ferrer e não a São José. Ele diz que a doação a Nossa Senhora do Carmo se estendia do córrego Borá até o córrego Piedade e que, a doação feita a São José (Bom Jesus e Santa Cruz?) teve seus papéis “amoitados” e que essa doação fora causa no passado de “muitos crimes”.

Para Oiticica Lins, escrevendo em 1918 para o Álbum de Rio Preto, o “verdadeiro fundador” da cidade teria sido Antonio Carvalho e Silva “insulando-se nas florestas virgens cheias de mistérios e surpresas!”. Ele continua, afirmando que foi em 1845

 

…segundo testemunho histórico, que esse intrépido mineiro pisou, pela primeira vez, o solo rio-pretense, trazendo cargueiros e escravos, em companhia do seu irmão Luiz Antônio da Silveira a quem, erroneamente se atribui a doação do patrimônio de São José, e de Vicente Ferreira Neto, abrindo vereda mato adentro, desde Bebedouro do Turvo até as cercanias dessa cidade, onde se deteve a comitiva já desprovida de recursos.

Começaram então as incursões: — Luiz Antônio da Silveira penetrava pela “Piedade” aposseando-se das vertentes do córrego “Espraiado” e que mais tarde, em 1863, vendia Antônio Ferreira Machado e seus irmãos e da vertente ocidental do córrego “Borá”. Antônio Carvalho e Silva e Vicente Ferreira Neto tomaram posse de todas as vertentes do córrego “Canela” e da margem oriental do “Borá”, que, atravessando ambos essa cidade, vão desaguar no Rio Preto.

 

Ainda segundo Oiticica, a doação à Nossa Senhora do Carmo teria sido registrada em cartório em 5 de junho de 1847, em Minas (não diz em qual cidade), por Luiz Antonio da Silveira e sua mulher, Thereza Francisca de Jesus. Vicente também teria registrado sua doação, mas essa escritura teria desaparecido complemente, com suspeitas de ter sido queimada criminosamente. Leonardo Gomes escreveu em 1975, em seu livro, página 56, que Luiz Antonio da Silveira e sua mulher haviam registrado a doação à São José em Casa Branca, em março de 1852.

No final das contas, segundo o professor Brandi, as doações corretas são: para São José, feita por Antonio Carvalho e Silva; para Nossa Senhora do Carmo, feita por Luiz Antonio da Silveira. Daí, depreende-se que a São Vicente Ferrer foi feita por Vicente Ferreira Neto.  

Uma vez que a cidade foi fundada sobre o patrimônio de São José e, como não há documentos comprobatórios, convencionou-se, tacitamente, comemorar o aniversário de fundação no dia 19 de março, dia do padroeiro.

O espaço retangular formado pelo terreno entre as nascentes dos córregos da Canela e Borá até sua foz no rio Preto, segundo a medição de Ugolino Ugolini, contratada pelo padre Bento, em 1895, era de 678 alqueires mais 4.164m2.

Neste espaço, João Bernardino construiu sua casa em 1852. Consta que o terreno que ele escolheu estava situado em uma curva suave do Picadão de Cuiabá deslisando para o norte, em direção ao rio Turvo. Os índios Guarani estavam à sua esquerda, a uns trezentos, no máximo quatrocentos metros, rumo ao oeste, onde o sol se põe. Os índios moravam no ápice do espigão entre os dois córregos e, coisa de quinhentos metros, do rio Preto.

Todos os historiadores antigos são unânimes: João Bernardino tinha escravos e agregados. Ele construiu um enorme mangueirão cercado de lascas de madeira de lei para criação de porcos e outros animais como cabritos, carneiros e ovelhas. O mangueirão dava fundo para o córrego da Canela. Alguém chegou a aventar que vez ou outra ele levava centenas de porcos vivos para vender em Jaboticabal. Uma viagem difícil e penosa. Não há registros concretos sobre isso.

Não se sabe de quem Joao Bernardino comprou seu lote de terra. Ou se realmente comprou. O terreno “pertencia” a São José, um ente abstrato. Como houve a doação a um santo, logo o terreno pertencia à Igreja Católica. E os representantes da Igreja não estavam presentes. Dessa forma, há se entender que todo os primeiros moradores tomaram posse de um lote de terra e construíram suas choupanas e, mais tarde, quando a Igreja chegou, legalizaram e suas posses.

Como ninguém constrói nada sozinho, não seria anacronismo dizer que a cidade foi fundada por um grupo de pessoas, ao invés de única uma pessoa, neste caso, João Bernardino. Pelo menos três raças amalgamaram-se na fundação de São José do Rio Preto: o branco, nas figuras de João Bernardino e Maria Ignacia, os negros representados por seus escravos (pretos e pardos) e os indígenas nas pessoas da tribo Guarani.

A primazia de João Bernardino como “o fundador” é questionada há mais de um século. Oiticica Lins, em 1918, chamou a atenção para o “apagamento” de Antonio Carlos da Silva na sua posição como fundador. Ele diz, textualmente, na página 5, do Álbum de Rio Preto:

“Ao heroico e obscuro fundador de Rio Preto, que para essas regiões trouxera, com quantos sacrifícios houvera, os pródromos da civilização, se tem negado a glória tão duramente conquistada, opondo-se a verdade histórica fundada, na melhor tradição, o merecimento duvidoso de um documento, por todos os motivos acoimado de falsidades!

De fato, por muitos anos, João Bernardino e Mariana Ignacia estiveram sós naquele enorme pedaço de terra de quase 700 alqueires. Tudo o que construíram contou com a ajuda prestimosa de seus agregados, escravos, vizinhos distantes e os índios. Caminhos foram sendo abertos, florestas derrubadas e plantações semeadas. Aos poucos, bem devagar, o entorno de João Bernardino e dos índios foi ganhando novos ares. Uma choupana aqui, outra ali… ao ponto de, em 1867, quando por aqui passou e pernoitou sob forte chuva, o futuro visconde de Taunay registrar para a posteridade a existência de “meia dúzia de palhoças” e uma capelinha em ruinas, em um certo lugar chamado São José do Rio Preto.

De 1852 a 1867 foram quinze anos. A vila pode não ter prosperado como observou Taunay, mas em seu entorno, num raio de pelo menos 50 quilômetros, vicejavam fazendas e sítios, o que tornava a região próspera e promissora. De 1867 a 1872 foram mais cinco anos e o Censo Imperial registrou a presença de 125 moradores vindos de doze estados diferentes, desde o Rio Grande do Sul até o Maranhão e, o maior contingente vindo do Rio de Janeiro. Um grupo de 44 novos mineiros havia se agregado aos antigos.

Brancos, negros e indígenas formam as raízes de São José do Rio Preto, juntamente com as mulheres, brancas, negras e indígenas, sempre presentes, como a patroa Marianna Ignácia e a escrava Maria Madalena que, em sua azáfama diária encontraram a imagem de São José de Botas, abandonada ou esquecida, por uma mulher Guarani.


Fonte: quemfazhistoria.com.br; história popular de São José do Rio Preto