O período em que São José do Rio Preto foi Distrito de Paz, primeiro de Araraquara e depois de Jaboticabal, é um dos mais obscuros da nossa história. Foram 39 anos, entre 1855 e 1894. A conquista do distrito era um sonho dos pioneiros rio-pretenses que demorou três anos para se concretizar.
O primeiro passo dos pioneiros foi provar que existiam habitantes no vasto território coberto pelas florestas e que o governo assinalava nos mapas como “sertão desconhecido”. Os historiadores registram que no dia 19 de março de 1852, um grupo de lavradores e fazendeiros — desbravadores que haviam entrado nas matas para abrir fazendas — reuniram-se na casa de sapé, que João Bernardino de Seixas Ribeiro havia construído um ano antes no espigão do rio Preto, entre os córregos Canela e Borá. Nessa reunião, eles decidiram encaminhar uma carta à Câmara Municipal de Araraquara solicitando a criação do Distrito de Paz.
A criação do Distrito de Paz tinha grande significado para os pioneiros porque permitia a instalação de um cartório, evitando com isso longas e cansativas viagens até Araraquara, feitas em lombo de burro ou a cavalo, em picadas no seio da floresta, uma vez que a estrada existente — o Picadão de Cuiabá — era precária e perigosa. Sem cartório, muitos nascimentos e óbitos não eram registrados. A data desta reunião entrou para a história como a data em que se comemora a fundação de São José do Rio Preto.
Para obter o distrito, os pioneiros precisavam provar indícios de aglomeração urbana e a existência de um número razoável de habitantes. Então, eles formaram uma comissão para relacionar todos os “chefes de fogão” (chefes de família) espalhados no vasto território do bairro do Rio Preto. Demoraram dois anos para concretizar a relação.
Se João Bernardino de Seixas Ribeiro havia construído a primeira casa em 1851, sobre o patrimônio de São José, doado por Luiz Antonio da Silveira, pode-se concluir que em março de 1852 não havia ainda a configuração de núcleo urbano. Sem isso, a comissão organizada para tratar do Distrito de Paz tratou de colocar no papel uma relação de moradores, sugerindo aos deputados paulistas uma ideia aproximada de uma vila em formação.
Para executar este trabalho, a comissão organizou-se por “quarteirões”. É necessário esclarecer que um “quarteirão” compreendia, por exemplo, a totalidade dos territórios hoje compostos por municípios como Rio Preto, Guapiaçu, Onda Verde, Nova Granada, Palestina, Paulo de Faria, Mirassolândia… O território de Rio Preto foi dividido em três “quarteirões” sob a responsabilidade dos inspetores Jerônimo Pires de Godoy, Teodoro Ferreira Lemos e João Gonçalves de Souza.
Em março de 1854, finalmente foi redigida a carta à Câmara Municipal de Araraquara, com a relação de moradores anexada, pedindo a elevação do bairro à categoria de Distrito de Paz. Para manter contato com os vereadores araraquarenses foram escolhidos os pioneiros João Botelho de Vasconcelos, José Garcia Neves, Domingos Francisco de Mendonça, José Carlos de Souza e José Bernardino de Seixas. No documento enviado à Câmara de Araraquara, eles relacionaram como “chefes de fogão” do futuro Distrito de Paz de São José do Rio Preto os seguintes moradores:
Primeiro “quarteirão”, que englobava os territórios onde hoje estão Rio Preto, Guapiaçu, Cedral, Nova Granada, etc…, relacionando os seguintes habitantes: Ana Custódia, Antônio Corrêa de Moraes, Antônio José Castor, Antônio Luiz, Antônio Joaquim, Antônio Pereira, Antônio Vieira, Bento José Rodrigues, Bernardo José de Souza, Custódio José de Souza, Custódio José de Souza Júnior, David Francisco Rodrigues, Domiciano José Ramos, Felício José do Nascimento, Felipe Antônio, Floriano Dias, Francisco Hilário, Francisco Ignácio, Francisco Jacintho de Almeida, Jerônimo Pereira, Jerônimo Pires de Godoy, João Antônio de Paiva, João Botelho de Vasconcelos, João Ignácio Correa, João Marcelino, João Rodrigues Teixeira, Joaquim Thomas, José Borges, José Carlos de Souza, José Faustino, José Felipe, José Joaquim Rangel, José Soares de Castro, José Vieira, Justino Pedro de Alcântara, Ignácio Gomes, Ignácio Rodrigues, Leandro de Siqueira, Luiz Antônio da Silveira, Manoel Antônio de Menezes, Manoel Corrêa Tristão, Manoel Francisco, Manoel Guilherme, Manoel Pereira, Maximiano Cordeiro, Miguel Joaquim Viana, Moisés Marques Viana, Prudêncio de Tal, Pedro Maria, Salvador Carvalho da Silveira e Silvério Rodrigues da Costa.
Segundo “quarteirão”, que englobava os territórios onde hoje estão Mirassol, Tanabi, Bálsamo, Monte Aprazível, etc… ficou sob a responsabilidade de Teodoro Ferreira Lemos, relacionando 61 habitantes: Agustinho Ferreira da Cunha, Anna Esmeralda da Silveira, Antônio Cassimiro da Silveira, Antônio Luiz de Souza, Antônio Mendes Soares, Antônio Pompeo, Antônio Ribeiro Malta, Carlos Soares da Costa, Domingos Francisco de Mendonça, Domingos de Souza Lopes, Felisbino de Paula Ribeiro, Fidélis Soares da Costa, Francelino Ribeiro Malta, Francisco de Paula Ribeiro, Francisco Ferreira Lemos, Francisco Gonçalves da Costa Ferreira, Francisco Maximiano dos Santos, Francisco Souza Lopes, Hilário Misael Arruda, Ignácio Antônio da Silva, Izaías de Tal, Jerônimo de Paula Ribeiro, João Alzírio da Costa, João da Costa Maldonado, João Domingos, João Francisco, João Garcia Lopes, João Misael dos Santos, João Rodrigues da Silva, João Vicente, Joaquim Diogo Garcia, Joaquim Francisco da Silveira, Joaquim Luiz de Souza, Joaquim Ribeiro Boeno, Joaquim Soares da Costa, Joaquim de Souza Lopes, Joaquim Vieira Lemos, José Antônio Dornes, José Alves, José Correia Alves, José de Souza Lopes, José Luiz Sanctos, José Pereira Machado, José Rodrigues de Oliveira, Leopoldino Ferreira Lemos, Manoel Adriano Pompeo, Manoel Diogo Garcia, Manoel José Carlos, Manoel Ferreira da Cunha, Manoel Pereira, Manoel Pinheiro Roma, Romoaldo José Ramos, Sabino José Nogueira, Sabino Ribeiro Malta, Salustiano José da Silveira, Sebastião Cardoso da Fonseca, Sebastião José, Silvério Gonçalves, Teodósio Ferreira Lemos e Tibúrcio Florêncio Ferreira de Mendonça.
Terceiro “quarteirão”, que englobava territórios onde hoje estão José Bonifácio, Penápolis, Ibirá, Mendonça, Nova Aliança, Potirendaba, etc…, sob a inspetoria de João Gonçalves de Souza, era habitado por: Antônio de Arruda, Antônio Machado, Antônio José Chaves, Antônio Luiz de Oliveira, Balbina de Tal, Bernardino Mendes de Seixas, Bonifácio de Tal, Claudio de Tal, Felesvino de Tal, Feliciano de Tal, Felizardo Cardoso, Francisco da Costa, Francisco da Silva, Francisco de Paula Moura, Francisco de Paula Oliveira, Francisco de Tal, Francisco Cordeiro, Francisco José, Francisco Pereira, Jerônimo Leite, João Antônio Ribeiro, João Antônio, João Cândido, João Fernandes, João Gonçalves, João Leite, Joaquim Avelino, Joaquim Gabriel, Joaquim Gonçalves de Souza, Joaquim Pompeo, José Bernardino de Seixas, José Cristóvão Custódio, José Gonçalves, José Gonçalves de Souza, Manoel de Tal, Manoel Gonçalves, Manoel Joaquim, Manoel José, Manoel Teodoro, Manuel Custódio, Martiniano de Tal, Valério Cardoso da Silva, Vicente de Tal e Vitoriano Ferreira Lemos.
O esforço dos pioneiros deu resultado positivo. Em 20 de março 1855, o presidente da Província de São Paulo, José Antônio Saraiva (Conselheiro Saraiva), assinou a criação do Distrito de Paz. Além do distrito, Saraiva assinou uma segunda resolução criando a Subdelegacia de Polícia. Era vitória dupla. Com o distrito, o bairro poderia ter o seu Cartório, o que representava uma conquista de cidadania. Até então, era comum os pais deixarem os filhos sem registro de nascimento, os casamentos não eram oficializados e os mortos eram sepultados sem atestado de óbito. Por causa das distâncias e das dificuldades de viagem, eles deixavam para fazer tudo de uma só vez, quando alguém ia até Araraquara ou Jaboticabal. Além do Cartório, agora a vila teria também o seu subdelegado, facilitando as questões policiais.
O levantamento popular feito pelos pioneiros, revela que o extenso território rio-pretense estava ocupado por pelo menos 160 cidadãos adultos, o que torna possível supor que já em 1852 a população residente no território do futuro Distrito de Paz estivesse girando acima de um mil (1.000) habitantes, levando-se em conta o número médio de membros de uma família na época, de seis a sete pessoas.
Pode-se notar que apenas o nome de Luiz Antônio da Silveira figura nas relações. Os nomes de João Bernardino de Seixas Ribeiro, de Antônio Carvalho e Silva e de Vicente Ferreira Neto não aparecem. Também pode ser notado que apenas três mulheres, Ana Custódio, Anna Esmeralda da Silveira e Balbina de Tal, provavelmente três viúvas, estão relacionadas como “chefes de fogão”.
Segundo os registros históricos, o primeiro juiz de paz da cidade teria sido Fidélis Soraes da Costa. Em 1867, o juiz de paz passou a ser João Evangelista Corrêa e o cargo de escrivão foi ocupado por João Manuel da Silva. Por outro lado, consta também que Leopoldino Ferreira Lemos teria ocupado o cargo de juiz de paz de 1860 até 1892. O cargo de juiz de paz era preenchido por meio de eleição trianual. Essa longevidade de Ferreira Lemos no cargo pressupõe que a vila de São José do Rio Preto ficou esquecida nas eleições anteriores a 1892 ou, então, que ele tivesse sido reeleito sucessivamente durante mais de trinta anos. O historiador Agostinho Brandi sustenta que não houve eleições para juiz de paz para o distrito de Rio Preto neste período. Somente em 1892, foi realizada uma eleição para preencher os cargos de juízes de Paz. Elegeram-se Pedro Amaral, Crescêncio José Carlos e João Dulcídio Pereira Mesquita, cada um com mandato de um ano.
Em 1868, o território do Distrito de Paz de Rio Preto foi desmembrado de Araraquara, passando a integrar o município de Jaboticabal. Com a eleição municipal, o distrito de Paz de Rio Preto elegeu Antonio Bernardino de Seixas ou para vereador. Ele tomou posse na Câmara de Jaboticabal, mas nunca mais voltou, abandonando o cargo. Era preciso viajar cerca de 360 quilômetros, ida e volta, a cavalo para participar das sessões mensais.
Ao ser elevada à categoria de Município, em 19 de julho de 1894, São José do Rio Preto passou a ter seus próprios distritos de Paz e seus bairros rurais. O primeiro registro sobre os distritos de paz do Município de São José do Rio Preto aparece na “Encyclopedia e Diccionario Internacional”, lançado em 1905, na página 9.875, informando que Rio Preto tinha 14.000 habitantes e seis distritos de Paz: Tanaby, Ibirá, Avanhandava, Vila Adolpho, Itapirema e Itapura e sete distritos policiais: Guanabara, Monte Bello, Piassava, São Domingos do Cerradinho, São Sebastião da Cachoeira, Serradão e Três Córregos. É evidente que houve algum erro de informação sobre Rio Preto na Encyclopedia, porque Villa Adolpho e São Domingos do Cerradinho são os nomes primitivos de Catanduva, São Sebastião da Cachoeira é o nome primitivo de Ibirá enquanto que Guanabara e Piassava não têm nenhuma referência histórica com Rio Preto.
Em 1911, a Divisão Administrativa Estadual dividiu Rio Preto em sete distritos: Jataí (Tanabi), Avanhandava, Itapirema, Itapura e Vila Adolfo (Catanduva), Rio Preto propriamente dita e o bairro da Boa Vista (que durante certo tempo foi considerado um distrito de Paz); nove anos depois, em 1 de setembro de 1920, o Município tinha os seguintes distritos: Cedral, Ignácio Uchoa, Ibirá, Três Córregos (Potirendaba), Itapirema, Cerradão (José Bonifácio), São Jerônimo, Monte Aprazível, Mirassol, Tanabi e Nova Granada. Catanduva, Avanhandava e Itapura já não pertenciam mais a Rio Preto.
Uma nova divisão administrativa, feita em 1933, relacionava para Rio Preto os distritos de Borboleta (Bady Bassitt), Engenheiro Schmitt, Ipiguá, Itapirema com sede em Monte Belo, Nova Aliança e Ribeirão Claro (Guapiaçu); nas divisões territoriais de 31 de dezembro de 1936 e 31 de dezembro de 1937, o Município tinha como distritos Borboleta (Bady Bassitt), Engenheiro Schmitt, Ipiguá, Itapirema, Nova Aliança, Ribeirão Claro (Guapiaçu) e Vila Mendonça.
Na divisão de 31 de março de 1938, Itapirema desaparece, dando lugar à Nova Itapirema e, seis anos mais tarde, em 30 de novembro de 1944, os distritos foram reduzidos a Borboleta (Bady Bassitt), Engenheiro Schmitt, Ribeirão Claro (Guapiaçu), Ipiguá e Talhado. Atualmente, apenas Engenheiro Schmitt é distrito de Rio Preto. Em 03 de janeiro de 1972, Talhado perdeu o status de distrito e voltou a ser apenas um povoado. Ipiguá se emancipou a partir de 31 de dezembro de 1996.
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