ESPECTROS é uma obra madura. É assim que se pode definir o mais novo livro publicado pelo médico psiquiatra Wilson Daher, no alto de seus 84 anos. Compre seu exemplar por aqui.
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ESPECTROS reúne 11 contos do autor. Leia um deles:
Foi um raro momento em que cheguei a duvidar da minha cabeça, que sempre tive como boa, pouco passional, mais regida pela lógica crítica em que eu fundamentava minhas opiniões e meus paradoxos. Meus amigos mais chegados diziam que eu era cartesiano, mas como sou cabra criado em vilarejo, demorei um naco de tempo para entender esse trem que, mais tarde, assumi como postura elogiosa aos meus vinte e poucos anos daquela época. Só um esquisito professor de latim parecia me entender e rir ironicamente de meu palavreado mineiro, enquanto assoprava baforadas de fumaça de seu charuto fedido em minha cara sonolenta do trabalho noturno em padaria de bairro.
Mas eu vivia para mim mesmo, enquanto mergulhava em leituras de livros que só podia comprar a preço vil em sebos da cidade, devorando história das religiões, bons romances desprezados por uma pretensa elite intelectual, biografias de muitos imortais e às vezes me aventurando em algumas ideias da Filosofia. Pensamentos fervilhavam em minha mente, tais hábitos eram vistos como uma negação da juventude, soube que me taxavam de lelé da cuca e que talvez, mais à frente, poderia endoidar de vez, me desarrazoar de tudo o que eu era ou poderia ser mais à frente. Talvez quisessem admitir que eu fosse brilhante, um fora de série que estava jogando coisas preciosas na lata de lixo. Uma apreciação que solavancava meu narcisismo ainda imaturo.
Mas aí aconteceu o que eu não previa, mas que me fez lembrar as tiradas irônicas do velho latinista e de certas maledicências de velhos amigos que agora, devido a todo este desenlace, eu já não julgava como falatório de maldades. Tudo então era real, mas só era real aos meus olhos aquela visão noturna de espectros ambulantes vagando ante meus olhos atônitos, indiferentes às minhas queixas de dor e súbitas perdas de consciência. Vagavam pelos corredores mal iluminados, carreando macas ou puncionando veias em que, gota a gota, fluíam soro ou sangue, enquanto médicos e enfermeiras, em silêncio espectral, seguiam naquele cortejo de vida ou morte, mudos, mesmo os gestos eram mudos, eram corpos estatuados que caminhavam pelos corredores e não me viam pousado na maca em que haviam me deixado ao som de uma sirene estridente da ambulância. Talvez eu não existisse e pensava que existia. Só me lembro disso, que me deixaram ali sem qualquer explicação, eu ainda estava consciente e tentava dizer que não era ali, não era aquele lugar de prédio abandonado onde fora um hospital antigo, em cuja frente crescia há tempos um matagal de tiriricas, que eu deveria ser jogado como um cão ferido em um lugar qualquer. Eles caminhavam em fila interminável, uma procissão de solenidade muda, enquanto meus olhos seguiam o cortejo e minha boca não tinha uma garganta para gritar e dizer que eu estava ali, que eu ainda existia, embora eu mesmo não tivesse certeza deste apelo mudo, eu me sentia encaixotado. Olhava o teto, ali deitado não tinha como não olhar o teto, procurava as luminárias que talvez acendessem de repente, mas elas também estavam mudas, guardando uma escuridão silenciosa, era esta minha dura realidade irreal, um de meus constantes paradoxos.
Eu sentia dor e arrepios ante a visão etérea de homens e mulheres, fantasmiados de branco, nem dava para ver se suas roupas eram respingadas de sangue coagulado, via apenas que os corredores eram incrivelmente longos, intermináveis, escuros e eles não se detinham naquela procissão dantesca, como a imaginei. Tentei me beliscar para me perguntar e me responder se eu existia, se aquele antigo hospital tinha sido repovoado por antigos médicos ressuscitados, que teriam voltado pelo apego a ele. Nem isso consegui mas, súbito, alguém se desviou daquela procissão, uma enfermeira espectral, com uma seringa gigantesca, vindo em minha direção com a mão direita estendida e me injetando um líquido dolorido, sem mesmo me perguntar da minha dor. Voltou-me as costas e se perfilou de novo, como se nada tivesse acontecido. Agora sim, eu estaria morrendo dentro de uma sonolência imediata, da qual só acordei depois de horas, então deitado em uma cama limpa, cercado de médicos e enfermeiras ainda aturdidos pela minha inquietação falante. Olhei-os assustado, tentei vislumbrar os longos corredores escuros, a procissão com seus médicos zumbis estatuados e lentamente móveis em direção a nada. Mas não havia mais os corredores escuros, somente os médicos que me olhavam com um jeito sorridente por terem vencido a minha morte, após a hecatombe de um caminhão sobre o meu carro, despejando sangue no asfalto ainda molhado por uma chuva fina.
Longos corredores escuros, ressurreição dos mortos que salvavam vidas e hoje despertaram como desencantados das trevas, estatuados ambulantes em fila interminável ante meus olhos fartos dos opiáceos, enrodilhados em meus neurônios aflitos entre a escuridão e a luz.
Meu olhar reflete esta angústia, este medo com que observo a enfermeira. Peço com os olhos que não me levem para a fila, ao mesmo tempo em que forço o movimento dos pés. Eles se mexem, então percebo que estou vivo, mas ao mesmo tempo me apavora a ideia de que esteja morto, sem saber que morri.
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