QUEM e o QUE

são HISTÓRIA na

QUEM e o QUE são HISTÓRIA na

Nossas vidas são sempre marcadas por fatos, pessoas e lugares. Eles se entrelaçam, se casam e divorciam no avançar da história de vida de cada um. Tenho um lugarejo em especial na minha, chamado Catiguá. Seja lá o que os antigos nativos do lugar queriam dizer, talvez a expressão tupy-guarany tenha perdido o sentido quando se foram e deram lugar aos seus novos habitantes.

Um pensamento diz que certa é a interpretação de que os lugares e as pessoas passam, mas a gente fica e, depois, também se vai. Minhas lembranças de Catiguá já são da nova cidade. Nasci depois do inverno de 1975 num lugar em transição com seus primórdios. Respirei pela primeira vez no Hospital Padre Albino, em Catanduva.

O velho padre que fora íntimo de meus avós e pais deixara uma semente poderosa plantada no município vizinho. E as parteiras? Elas quase não mais existiam, se encontravam em avançada extinção. Sendo assim, como não há hospital no município, há quase 40 anos que não nasce um verdadeiro catiguaense.

Nessa época, o município já havia se consolidado num só, embora a união dos distritos de Catupiry e Ibarra ainda deixasse forte indiferença na esfera política. Um pedaço de Catanduva e outro de Tabapuã acabaram por unir-se e suas comunidades, sem saber bem o que queriam, se absorveram, como que em um casamento arrumado.

Conheci muita gente da “transição”. O Abraão do Cinema, dona Dita, o velho Coutinho, Nêgo Paschoal, Cido Araújo, meu avô Antonio e muita, mas muita gente que se encontra hoje apenas nas minhas recordações.

E já não era mais a velha localidade do seu Darcy que via com meus olhos miúdos. A transformação promovida pelo senhor do tempo é voraz e implacável, corrói tudo o que é bom e também tudo o que é ruim.

Como jornalista, continuei minha sede de saber de tudo como já o foi. Pormenores, nomes, apelidos, fatos, o que aconteceu em cada esquina. Esta esquina, quem gostava de ficar parado nela, a comentar os fatos do dia, papai?

Numa de minhas primeiras reportagens conheci mais de perto a pessoa de Arlindo Marson, o Tite, velho amigo da minha família e também da família Silveira. Diante de um homem da casa dos 80 anos tocando trombone numa manhã de domingo, fiquei perplexo como tem o poder de persuasão uma grande existência.

Constatei que às vezes os lugares se vão antes das pessoas. A velha cidade de seu Tite já não existia nesta dimensão astral, mas ele estava ali, como um resquício do lugar. Realmente, quando procuro a cidade que não encontro, fico angustiado e peço para que o bom velhinho, como que num passe de mágica, transfira minha existência para um século atrás.

Lembranças, fatos, brigas e risadas, cada comunhão respirada e vivida em Catiguá é apagada a cada segundo, como cada um que pega o trem da vida e parte para sempre.

Como me disse uma vez seu Hélio, irmão do Darcy, tem coisas que interessam apenas aos agentes e muitos deles nunca mais serão reagrupados. Dias desses, em Brasília, passei a mentalizar minha Catiguá. De longe, até as lembranças ficam mais claras.

Recordei dos carreadouros no meio das plantações de café que percorria até se sabe onde. Conheci muitas das árvores mais antigas, riachos e cachoeiras. Muitos sábios moradores das beiras das estradas. A ponte do sítio dos Pelisom, onde diziam que dois palhaços de folias de reis haviam se enfrentado até a morte.

Definitivamente, entre os lugares e as pessoas existem mais coisas, mas nem sempre as enxergamos. Foi naquele lugar, dos Reis, defronte uma antiga mina de água cristalina, que numa tarde ensolarada ocorreu um dos grandes mistérios de minha vida.

Eram duas da tarde, o Sol estava a pino. Chegara da escola e queria beber da fonte, água sempre esteve presente nas minhas vontades. Não iria de bicicleta até as Termas de Ibirá, como fazia quase todos os dias. Estava um pouco cansado em percorrer os cerca de dez quilômetros e iria naquela tarde absorver a água da fonte dos Pelisom, que fica há três mil metros de casa.

Ao chegar, me deparei com a bela bica d’água, o barulho dela com o chão de pedra, o canto dos pássaros. A sombra dos bambuzais da redondeza (uma marca registrada de nossas paisagens) se espalhava a aconchegar o solo. Senti um calor, olhei para traz. Uma luz intensa, amarela e voraz tomava o meu semblante e, passou. Passou rápido. O lapso me assustava, me apavorava, pois, por incrível que pareça, já estava escurecendo.

Enfim, um caso que nunca tive explicação. Mais uma memória de minhas andanças por Catiguá, que me fizeram, desde então, a olhar sempre para o seu alto. Essa é a minha única certeza acerca de Catiguá.

O céu que vejo hoje fincado nessas terras é a única forma nítida de como um dos ilustres moradores dos tempos de outrora também o via. Nas estrelas de Centauro hoje é o ontem do amanhã.


Nascido em Catiguá, é cronista e jornalista, redator do jornal Folha Caipira